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terça-feira, 6 de dezembro de 2011
O Jardim Adormecido
Os desejos adormeceram atrás das janelas,
as histórias de amor e as traições
adormeceram atrás das janelas,
e os agentes de segurança também.
Rita dorme... dorme e desperta os seus sonhos.”
(trecho do poema O Jardim Adormecido, de Mahmud
Darwich, tradução de Albano Martins, Porto,
Campo das letras, 2002)
Quando o sol se põe a cidade ganha outro tipo de iluminação e a luz elétrica torna-se a estrela da noite. Na parede do quarto é possível criar um teatro de sombras, um abajur acesso pode ser a melhor arma para a criança que tem medo de monstros ou até mesmo um cúmplice da menina que escreve em seu diário. Durante a noite a fantasia sai para dançar, os enamorados se amam, a dama da noite exala seu perfume, os boêmios se embriagam e podemos sonhar.
Rita sonha de noite, Marcela, Antônia, João, Jimson, Honório, eu e provavelmente você também. Dormimos e acordamos, para depois dormir, sonhar e despertar os sonhos. Porém, em uma cidade sem estrelas e onde muitos dormem na rua, pode-se dizer que despertar os sonhos é para poucos.
Um luminoso brilha no centro de São Paulo avisando: Os desejos adormeceram atrás das janelas. Mendigos, empresários, viciados, famintos, burgueses, andarilhos, madames, prostitutas, crianças, estrangeiros, estudantes, enfim, pessoas (que podem tanto estar na São Paulo de Regina Parra, como na Palestina de Mahmud Darwich) são lembradas que os desejos adormecerem atrás das janelas.
Da rua é possível observar janelas. Da janela se observa a rua e mais janelas. A noite vem para todos, os sonhos e os desejos também, mas nem todos despertam seus sonhos, assim como muitos não acordam de seus pesadelos.
Durante o dia muitos dormem estirados sobre caixas de papel em avenidas, ruas, viadutos e pontes. Para eles não há janelas, portas, tetos e/ou paredes, quem dirá sonhos. A vida parece ser um pesadelo constante, em que a única maneira de sonhar seria na companhia de um narcótico. O crack é o parceiro mais desejado na cidade de Regina Parra, assim como o ópio na cidade de Mahmud Darwich.
Fora da janela fumaças de pólvora, drogas, lixo, pneu e gasolina. Um véu negro abraça a cidade que dorme e acorda cada dia mais densa. O barulho é muito alto para um sono tranquilo. Buzinas, disparos, passos, falas, gritos, suspiros e muitos outros ruídos compõem a sinfonia caótica da cidade. Do lado de dentro da janela parece haver pouca vontade de despertar. As pessoas dormem e acordam, olham pela janela e não querem sair; voltam a adormecer.
Uma cidade sonolenta, uma vida adormecida, o tempo que passa e não desperta. Como fazer para que os desejos acordem? E depois, como trazê-los para fora das janelas? Perguntas sem respostas, mas que persistem tanto na poesia de Mahmud Darwich como no trabalho de Regina Parra. Calados seguimos dormindo, hora sonhando acordados e hora vivendo um pesadelo.
III Mostra do Programa de Exposição do CCSP
Bandeira branca enfiada em pau forte
Mergulhada em melancolia e ao encontro dos acontecimentos atuais, é com tristeza que se inicia este texto com palavras tão pessimistas. Mas é a par de situações intoleráveis no mundo, de massacres e genocídios, de guerras civis e até mesmo de ditos “acidentes de transito” , que a exposição de Bruno Storni nos motiva a repensar a situação em que vivemos. Entretanto, seu trabalho não trata apenas de ideias relacionadas à guerra, ele nos instiga a respeito da cultura e da educação. Porém, independente do assunto abordado, tudo parece ser bombardeado quando se está em campo de batalha, assim com coloca Hobsbawm; “a menos que os fatos mudem, mudar palavras tampouco os muda”.
Ao entrar na Garagem, o espectador dá o primeiro passo em direção a um conflito comandado por Storni. Uma exposição leve e ao mesmo tempo densa, pois se somados todos os elementos tangíveis chegar-se-ia a um total menor do que 15 quilos, porém, alcançando um peso simbólico maior do que a carga de um arsenal. Trata-se de uma estrutura bélica construída com materiais inofensivos e de um tanque de guerra que exalta a vida ao invés da morte. Em todos os sentidos, é através do equilíbrio de forças opostas que a exposição consegue se sustentar.
Já de inicio uma imagem impactante, um tanque de guerra recebe a todos apontando uma metralhadora com o espírito de dar boas vindas ao que há por vir. Uma exposição branca e rodeada por painéis delicados; num ambiente frágil que a qualquer momento pode desmoronar. Quase tudo é feito de fita crepe e palito de madeira, sendo que os poucos elementos que fogem da regra - como por exemplo o aparelho de televisão - são revestidos por fita adesiva. A camuflagem é mais uma das estratégias de combate criada por Bruno, que luta com armas brancas, literalmente.
Um video exibe registros de batalhas anteriores e um manual didático é oferecido gratuitamente, a fim de ensinar passo a passo como construir um carro de combate. No video pode-se observar que a luta persiste a cada batalha, com o objetivo de ampliar mais e mais o território, tanto para dentro como para fora da Garagem: para a rua. Trata-se de conquistar territórios, de ir além e de quebrar o estigma de que para um ganhar a guerra o outro precisa necessariamente perder. Aqui a luta é a mesma para todos.
Garagem transmite a ideia de que a paz só existe por causa da guerra, mas não há guerra que justifique a paz; da mesma forma que obter a paz não significa ausência de luta. E é a partir desta retórica que o mundo continua a aceitar extermínios “justificados”, tal como o dos EUA frente ao “terrorismo”. Infelizmente, o equilíbrio encontrado por Storni no campo das artes visuais não reflete a realidade encontrada fora deste. Pelo contrario, o artista persiste em sua luta pacifica com objetivos claros em favor da bandeira branca.
Como já dizia o Gregório de Mattos em seu poema Triste Bahia: “bandeira branca enfiada em pau forte”.
II Mostra do Programa de Exposição do CCSP
Imagens Bruno Schultze
http://brunoschultze.carbonmade.com/
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O vidraceiro
Os deixo a vontade para trabalhar. Volto para meu quarto e começo a escrever, logo sou interrompida; o vidraceiro pede uma escada. Pego a escada e retorno à escrita. Sou interrompida novamente, agora ele quer jornal para forrar o chão, tomando cuidado para a cola não sujar o piso. Procuro o jornal mas não o encontro, já faz alguns meses que cancelamos a assinatura. Aparentemente, eu era a única que o lia. Encontro uma revista velha, daquelas que acompanhavam semanalmente o jornal. Entrego-a ao vidraceiro e pergunto se ele precisa de mais alguma coisa, ele responde “não, obrigado”.
Um espelho quebra, do meu quarto escuto o barulho. Termino de escrever esta frase e vou ver o que aconteceu. Me enganei, eles quebraram a lâmpada. Menos mal, acredito. Quando me vêem, olham para mim como se tivessem comido a sobremesa antes do almoço e dizem “houve um acidente”. Estava claro que acontecera um acidente, mas o vidraceiro precisava enfatizar que fora um acidente afim de não deixar culpados.
Pego uma vassoura e uma pá e lhe entrego. Como de costume, me agradece e pede outra coisa, um saco plástico para colocar os cacos da lâmpada. Vou a cozinha e lhe entrego dois sacos, coloco um dentro do outro. Olho para o chão e vejo a revista fechada e intocada; o chão não fora forrado. A lata da cola estava apoiada diretamente no piso e sua tampa ao seu lado.
O cheiro de cola chegava até meu quarto; fiquei imaginando quão forte deveria estar o cheiro de cola ao redor do vidraceiro e de seu assistente, vai ver que a cola foi a culpada pela lâmpada quebrada.
Volto para ver se está tudo bem. Eles haviam acabado o serviço, os dois espelhos estavam instalados e cheios de marcas de dedos. Ofereço outro copo da água e eles aceitam. O vidraceiro me diz que vai comprar uma lâmpada nova e que é para retirá-la na vidraçaria. Entrego o cheque e ele me dá um recibo. Os acompanho até a porta e nos despedimos.
domingo, 14 de agosto de 2011
Orizzonti dell’uomo
Felippe Moraes explora idéias que poderiam muito bem dialogar com a civilização egípcia, com o renascimento e até mesmo com o iluminismo. Pois é na possibilidade de criar o impossível que o artista se inspira; nas pirâmides do Egito, nas criações de Leonardo da Vinci, Michelangelo e Galileo Galilei, entre outros. Trazendo para sua produção o Homem Vitruviano como medida universal e a esfinge como mistério.
Ao mesmo tempo em que o artista busca no passado suas inspiração, é no contemporâneo que seu trabalho emerge. Motivado por pensar arte, ciência e misticismo em uma mesma esfera, Moraes usa signos que tangenciam as diversas áreas, tais como formas geométricas e o ouro.
Seria um devaneio pessoal associar a presença do ouro nas obras de Moraes ao impossível? Arrisco-me a dizer que não, visto que a alquimia – tida como a química da Idade Media e da Renascença – procurava, sobre tudo, descobrir a pedra filosofal, a fim de transformar metais comuns em ouro. Neste sentido, entendo o dourado como um elemento místico e científico, que alcança questões acerca do infactível quando realizado através da arte.
Moraes utiliza o ouro como elemento conector, que é representado através do dourado em quase todas as obras apresentadas. Como é o caso de O Concreto e o Sutil, 2011, uma série de imagens capazes de embair a mente. Tratam-se de quatro serigrafias, que quando vistas de longe mostram apenas um quadrado dourado, enquanto de perto revelam quadrados “presos” por ferramentas. Sendo que o nível, uma das ferramentas, apresenta um índice sutil de estranhamento, quebrando com o equilíbrio do todo.
A presença do quadrado segue em Olho, 2009, por meio de um desenho em negativo; como se a luz dourada que emana iluminasse o quadrado branco desenhado na parede. Fazendo alusão ao desenho de uma janela, porém de uma janela que não mostra nada ao outro, pelo contrario, observa-o.
Se em Olho o trabalho observa o espectador, em À Distância do Horizonte, 2011, ele indaga o posicionamento do homem perante o mundo. Com uma fórmula elaborada junto a um matemático, Moraes responde a cada indivíduo qual seria sua distância em relação ao horizonte, na impossibilidade de alcançar a linha em que a terra e o céu se tocam, visto que a cada passo a distância se mantêm.
A busca pelo infinito permanece em Orizzonti Dell’Uomo, 2011. Trata-se de uma fotografia, que registra uma homenagem concedida ao cientista, matemático e astrônomo, por seu aprimoramento significativo do telescópio. Pois igualmente a Galileo, Felippe Moraes sonha alto, com criações que buscam o eterno, o intangível e tudo aquilo que é inefável.
Destarte, a exposição nos remete ao impossível, mas não seria esta a função social da arte e da ciência; quebrar paradigmas?
Possibilidade
Para falar sobre o trabalho de Bruno Baptistelli (Beba) é preciso, antes de mais nada, mencionar a vida, o espaço e a arte. Foi a partir da vida que tive o primeiro contato com o artista, que depois me mostrou o espaço de uma maneira que até então não havia enxergado; como se criar um espaço fosse sinônimo de criar uma relação e, por sua vez, sinônimo de criar arte.
Com uma postura ativa perante a cidade e a sociedade, Beba usa do que está à sua volta para evidenciar o que podemos chamar de espaço entre; entre a vida e a arte ou vice-versa. O entorno vira seu ateliê e o acompanha por todos os lados, tal como a paisagem acompanha o andarilho em sua jornada. Como um andarilho, Beba não desfruta de nenhum material que possa ser dito “seu”, ao mesmo tempo em que “tem” todos, na liberdade de poder continuar caminhando sem carregar um peso (um fardo), pois sabe que o que precisa está ali, esperando por ser notado e usado.
Se a vida está para todos, por que a arte não haveria de estar? Tijolos, lixo, madeiras, objetos largados na rua, etc, tudo pode virar motivo, matéria e assunto de um trabalho, pois “tudo” tem potencial de arte, de vida, só é preciso ser potencializado como tal. É seguindo esta lógica que se dá a escolha do piso tátil como matéria-prima para os trabalhos aqui apresentados.
Tratam-se de dois trabalhos que são desdobramento de um mesmo projeto; entretanto, eles são autônomos, elaborados de formas distintas e apresentados em ambientes díspares. Enquanto Possibilidade 01 está localizado no pátio externo do CCSP, um lugar aberto e de trânsito, Possibilidade 02 encontra-se no piso Caio Graco, um recinto fechado e destinado a exposições. Todavia, independente das esferas relacionais em que eles “atuam”, a questão continua sendo a mesma para ambos: Como relacionar-se?
Possibilidade 01 e 02 proporcionam novas meios de circulação para um deficiente visual, interferem no olhar e no andar dos demais visitantes, e rompem com a objetividade de ir de um lugar a outro, seja através de uma curva no chão ou por uma linha contínua que abraça um cubo branco. Ambos atuam como um desenho no espaço (cada qual em seu ambiente e de sua maneira) e sugerem uma nova situação relacional entre o sujeito e o lugar em que este se encontra.
Para Nicolas Bourriaud, “A arte contemporânea realmente desenvolve um projeto político quando se empenha em investir e problematizar a esfera das relações", e acredito que Beba compartilhe deste mesmo pensamento, uma vez que sua produção se concentra nas possibilidades de relações criadas pelo seu trabalho. No entanto, não posso afirmar que esta seja a intenção do artista, uma vez que estou construindo um texto a partir da “minha” experiência relacional. Contudo, creio que sim, pois da mesma maneira que Possibilidade 01 e 02 relacionam-se entre si, com o espaço, com os espectadores, com questões estéticas, a partir de agora eles também se relacionam com este texto, por exemplo, e com o leitor.
Pois escrever um texto a partir de uma obra de arte é construir algo novo: a relação.
I mostra do programa de exposição do CCSP
terça-feira, 22 de março de 2011
O SUBLIME COMO POSSIBILIDADE DIANTE DA MORTE / A REPRESENTAÇÃO COMO IMPOSSIBILIDADE DE ALCANCE
Igor Vidor, na exposição "O sublime como possibilidade diante da morte", propõe três momentos para visualização de seu trabalho. Na sala à esquerda ele sugere a imagem do mar com uma lona. Na parede, fixado com silver tape, há um texto do próprio artista contando como ele sobreviveu a um mar revolto.
O espectador encontra-se imerso em uma lona azul, como se estivesse em alto mar. Ao nadar um pouco mais para o fundo, ele se depara com um surfista arrastado por um jetski. De início parece apenas uma brincadeira, mas depois de um minuto aquele homem solta a corda e vai ao encontro de uma onda gigantesca. A sensação provocada é de que surfar aquelas ondas significa estar no limite entre a vida e a morte, fato que torna o vídeo assustador.
Na sala à direita, o artista criou um precipício formado por dois espelhos que se refletem de cima pra baixo, como se fosse possível escutar, através do reflexo, um eco sem fim que beira o infinito.
Na sala abaixo, Igor Vidor apresenta um video realizado dias antes da abertura da exposição, que mostra o registro de uma proposição de surf organizada por em colaboração com o Ateliê Aberto, em uma praça de Campinas.
Sem mar e nem mesmo uma piscina de onda artificial, Igor cria, como se fosse um conto, um mar revolto em pleno concreto. Com a ajuda de algumas pessoas, uma lona azul se transforma em um mar com ondas de até 3 metros. Em instantes o mar esta cheio de surfistas urbanos, que com skates surfam em busca da onda perfeita.
As imagens apresentadas por Igor falam do impossível: surfar fora d’água é tão absurdo quanto sobreviver nas situações apresentadas, em forma de video e texto, ao longo da exposição. Miranda July, em Equipe de natação já dizia: “Mas em vez de morrer eu disse, Eu posso ensinar vocês a nadar. E não precisamos de piscina.”
A exposição fica até 5 de abril de 2011
no Ateliê Aberto; Campinas - SP






